*Fábio Nogueira

A teoria marxista deve reinventar-se na prática. Desta maneira, é necessário superar a concepção “escolar” e “conteudista” de formação política em que esta serve para corrigir a prática – como contrafreios a ação – e entendê-la como um processo global que só é efetivo quando a prática corrige a teoria.

Isso se torna mais evidente para aos que defendem o marxismo como a teoria do universalismo abstrato e não a do universal concreto:ou seja,convertem o marxismo em mais um das tantas correntes idealistas que existem no mundo.

Guerreiro Ramos, um intelectual nacionalista, denunciava o caráter eurocêntrico do pensamento social brasileiro:os esforços de tradução cultural e resignificação teórico-prática (que ele definia em termos de uma postura crítica-assimilativa) eram deixados de lado para a defesa sem tréguas do cânone europeu ou norte-americano. Este processo abarca a teoria marxista até hoje.

Observamos,o surgimento de um marxismo made in ou la française que empobrece a prática dos sujeitos históricos revolucionários, principalmente, pelo seu caráter exegético. As guerras de papel substituem as lutas reais,concretas. O que não se encaixa no quadro teórico eurocêntrico é descartado como excêntrico, fora do lugar. A teoria luta contra a prática ao invés de orientar-se por esta. A promessa da revolução social corre,portanto,o risco de torna-se mais um meio de “ocidentalização” e “europeização” de povos não europeus:assume-se o pólo conservador e expansionista do processo de formação do sistema-mundo moderno.

O marxismo, logo, só tem materialidade entre os povos quando traduzido,de forma ativa, pela vanguarda revolucionária,em termos de cada cultura particular. Ora, o marxismo russo de Lênin e Trotsky,a Revolução Cubana,a Revolução Chinesa etc viabilizaram-se historicamente por respeitarem este princípio. Poderíamos nos indagar sobre o que seria do marxismo sem os eventos históricos do outubro vermelho russo e de como estes modificaram e ampliaram os horizontes ideológicos da teoria marxista. Teorias como da “revolução permanente” e do “desenvolvimento desigual e combinado” de Trotsky ou, ainda, do “imperialismo” de Lênin não teriam, com certeza, a centralidade que tiveram para um setor importante do movimento revolucionário mundial. Traduzir o marxismo é,portanto, mergulhá-lo na cultura de um povo e fazer com que ele venha a lume renascido, resignificado, contextualizado e encarnado.

Em termos do pensamento marxista,no Brasil, autores como Caio Prado Jr e Florestan Fernandes priorizaram o enfoque histórico-estrutural. Esta interpretação, evidentemente, foi um importante ponto de apoio teórico que transcendeu ao etapismo do PCB. No entanto, esta abordagem não incorporou, de forma sistemática, o aspecto cultural.

Em outros termos, a ênfase na estrutura social – sua morfologia e dinâmica – fez tabula rasa do papel da cultura na formação da “consciência política ou histórica”. Em especial, em se tratando de um país policultural em que mesmo nas classes trabalhadoras existe uma diversidade de manifestações culturais que faz com que a “consciência histórica” se expresse de forma plural.

O sindicato –e os conflitos trabalhistas –continuaram sendo a contradição principal que subordinaria todas as outras e, por extensão, a base de uma consciência emancipatória mais ampla (forma “superior” de consciência histórica). Unir a base histórico-estrutural com a cultura – entendida em termos gramscinianos – como uma arena de luta e não como uma coisa fixa, sem historicidade – é um desafio que está colocado no tempo presente.

Este fato se reflete nos referenciais históricos (quando isso ocorre) que adotamos a “inventar” uma tradição histórica dos povos e da classe trabalhadora:ainda se vincula o surgimento de um movimento sindical combativo a imigração (e dissocia-se a história de luta dos trabalhares livres da dos trabalhos escravos,quando,na verdade,elas ocorreram,por um período,de forma conjunta);privilegiam-se as lutas urbanas em detrimentos das do campo;trata-se a participação de negros,povos originários e mulheres na cena histórica como episódios isolados e sem grande impacto político e,no mesmo sentido,as insurreições,quilombos e guerrilhas que se formaram no longo processo de escravização de originários e africanos.

Por isso,a obra mais importante do século XX, no Brasil, foi Rebeliões da Senzala, publicada por Clóvis Moura,em 1959. Este livro é o primeiro e mais expressivo grito de libertação da teoria marxista brasileira. Afinal,o que temos a aprender com a resistência secular de africanos e povos indígenas? Como foram possíveis o candomblé,as escolas de samba,a capoeira? De que maneira as mulheres se organizaram,como elas lutaram,o que as mobilizou para a luta? Quais foram as estratégias utilizadas e o que elas tem a nos ensinar? Quando superaremos a visão folclorizada das formas de consciência e luta gestadas por nosso povo? Como se constituiu a hegemonia burguesa e a contra-hegemonia,de uma perspectiva macro-histórica,considerando uma plêiade de intelectuais orgânicos formadas por babalorixás,ialorixás,pajés,caciques,compositores,sambistas,capoeiristas,repentistas,emboladores,cordelistas etc? Todo marxista deve estudar Patativa do Assaré e aprender com sua poesia:

“Caboclo Roceiro,das plagas do Norte
Que vive sem sorte,sem terra e sem lar,
A tua desdita é tristonho que canto,
Se escuto o meu pranto me ponho a chorar…

Tu és meu amigo,tu és meu irmão.”

A extensão do território brasileiro,suas diferenças regionais,temporais,culturais,econômicas e políticas torna o sujeito histórico revolucionário,em Pindorama [1],plural,heterogêneo,diverso,múltiplo. Este fato tem impacto decisivo quando pensamos o significado e a extensão de um instrumento político à luta revolucionária em nosso país.

* Sociólogo e professor universitário,militante do PSOL e Coordenação Nacional de Formação Política do Círculo Palmarino.

Publicado originalmente em http://www.circulopalmarino.org.br/2011/11/marxismo-e-cultura-por-um-marxismo-brasileiro/
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[1] do tupi-guarani,pindó-rama ou pindó-retama,“terra/lugar/região das palmeiras”. Designação pré-colonização às regiões que dariam origem ao Brasil.