Há uma rebelião negra em curso e o grande capital e empresários capitalistas já perceberam isso. E o Brasil pode ser o epicentro da rebelião negra mundial, mas isso só será possível se retomarmos a perspectiva das “comunidades de práxis”. As rodas de leituras e estudos, ações de mobilização e educação popular são meios de um saber/fazer coletivo e torna nossa experiência de “ser quilombo” algo bem concreto. No caso das cidades é necessário entender as periferias como os territórios preferenciais destas “comunidades de práxis” e estabelecer desde a experiência concreta (para além da discursiva) as bases de uma rebelião negra aberta contra a ordem dominante.

Nosso povo ainda continua majoritariamente procurando saídas individuais. Precisamos colocar a centralidade do aquilombamento em torno de ações concretas de solidariedade e diálogo. Precisamos deixar que o diálogo flua, ter organizações negras democráticas, em que nossos irmãos e irmãs possam se expressar. E isso como alternativa a agências políticas que estabelecem como eixo as articulações e redes e não as estruturas coletivas colocando-se, muitas vezes, como adversários dessas. Todo o movimento negro é necessário neste momento. Bolsonaro e a extrema-direita não cairão sozinhos. Derrotá-los é a nossa principal tarefa para o período.

Precisamos servir e acreditar no nosso povo e não abandoná-lo. Os atos nacionais convocados para o dia 13 de maio, próxima quinta-feira, pela Coalização Negra, Convergência Negra e da Frente Nacional Antirracista e outras articulações congêneres nada mais são que atos de quilombagem, um ensaio da revolução negra que pode tomar o país se a gente for mais organizado, mais coletivo, mais quilombo. Acertam os organizadores quando colocam a centralidade na defesa das vidas negras, contra a política de genocídio, por vacina e auxílio emergencial para todos. São muito importantes as campanhas de solidariedade como “Tem gente com fome”, o movimento “Panela Cheia” e um sem número de iniciativas das organizações e coletivos negros para fazer frente ao flagelo da fome que afeta nossa comunidade. Mas é preciso ter em mente que o capital sempre nos dividiu para dominar. O capitalismo é racial e patriarcal desde sua origem. Raça e gênero são as bases das hierarquias que organizam a exploração econômica de nosso povo. Quando falamos, por exemplo, do trabalho negro e feminino precarizado nos referimos ao trabalho negro e feminino super-explorado. Logo, a nossa aliança estratégica com o povo negro deve apontar a centralidade de um novo modelo econômico que tenha como foco a distribuição de renda, o fim da exploração econômica, os direitos da Mãe Terra e o combate a violência racial, algo que o capitalismo dependente brasileiro não é capaz de sustentar. Se não propriamente em uma perspectiva socialista, estes movimentos e articulações convergem (ou tendem a convergir) em um caráter anticapitalista. Malcom X tinha razão: “Não há capitalismo sem racismo”. Em outros termos, o racismo e o machismo não são estruturas de que a elite política e econômica brasileira podem simplesmente abrir mão.

A rebelião negra é uma questão de tempo. Não dá para matar, encarcerar e super-explorar indiscriminadamente. Se esta rebelião assumir um caráter espontâneo e desorganizado, além de poder cair com o próprio peso, seus resultados são imprevisíveis. Pondo-se em diálogo as principais lideranças e articulações negras as jornadas contra a ordem dominante podem ter maior fôlego e apontar para rupturas estruturais. Mas, como disse no início, as “comunidades de práxis” são estratégicas para que o protesto negro continue avançando e recupere, como nos ensinou Clóvis Moura, a radicalidade do projeto de Palmares e dos quilombos.