Trajetória

PROFESSOR FÁBIO NOGUEIRA:
UMA TRAJETÓRIA DE AQUILOMBAMENTOS.

 

“Ninguém sabe o duro que eu dei” – Fábio Nogueira, 42 anos, cientista social, formado pela USP – Universidade de São Paulo, mestre em Sociologia e Direito pela UFF – Universidade Federal Fluminense e doutor em Sociologia, também pela USP, é reconhecido como dono de uma carreira sólida e respeitável. Atualmente o professor Fábio Nogueira é docente da Universidade Estadual da Bahia e é autor dos livros “Porto” (Ed. Life, 2013), “Clóvis Moura: Trajetória Intelectual, Práxis e Resistência Negra”, (EDUNEB, 2015); e “Malês 1835 – Negra Utopia” (Fundação Lauro Campos e Marielle Franco, 2019). Quem o vê hoje como intelectual, escritor e palestrante não sabe a verdadeira jornada que teve que atravessar.

Isso porque assim como milhões de jovens negros deste país, Fábio nasceu de uma família pobre e de periferia e contou com poucos recursos econômicos e educacionais ao longo de sua trajetória. “Eu sou um negro periférico. Tive uma infância e adolescência em que senti na pele o que são as privações e dificuldades que uma família pobre sofre “, relembra, ele. Dona Miguelina, era dona de casa e durante a juventude iniciou a Escola Normal, tendo a abandonado para se casar com o soldado da Marinha, Jadir, com qual teve três filhos: Fábio (o mais velho), Izabel e Izabela. Vindo do interior e se aventurando na cidade grande como tantas famílias pobres deste país, no começo dos anos 80, foram viver no subúrbio, com uma renda apertada e muitas dificuldades. Aos cinco anos, Fábio queria aprender a ler e escrever e Dona Miguelina, então dona de casa, se dedicou a alfabetização do filho. “Devo a minha mãe meus dois nascimentos: o natural e o nascimento para a leitura”, pontua. Como diz a música de Caetano, “não havia livros em casa” e a leitura era estimulada por revistas em quadrinhos que se comprava na banca da esquina de sua casa. “A primeira palavra que me lembro de ler foi Nestor, um personagem da turma do Zé Carioca. Corri pela casa para contar a novidade para minha mãe. Foi um dia inesquecível. Me lembro como se fosse hoje”, relembra.

“Vou aprender a ler para ensinar meus camaradas” – Não por menos a escola sempre foi algo muito importante na vida de Fábio. Gostava de estudar, participava da vida social da escola e destacou-se como esportista. “Recentemente reencontrei meu professor de educação física nas redes sociais e a primeira coisa que ele disse foi ´Você foi meu atleta´”, se diverte Fábio. Foi a partir do movimento estudantil secundarista que deu os primeiros passos na política. Aos 13 anos, Fábio foi o líder de classe, cofundador do Grêmio da escola e inseriu-se no Movimento Estudantil Secundarista. Nessa época, se filiou ao Partido dos Trabalhadores (PT) ao qual dedicou os primeiros anos de sua militância. Combinando militância e estudos, com forte sensibilidade às desigualdades sociais, Fábio ingressou em 1996 na Universidade de São Paulo para fazer o curso de Ciências Sociais. “Apesar de eu ter prestado vestibular, não acreditava que tinha passado na USP. Era algo muito distante da minha realidade. Mas eu consegui.”, relembra. Na Universidade de São Paulo, fez o curso de Ciências Sociais enfrentando muitas dificuldades. Como não tinha dinheiro para manter-se, ocupou junto com outros estudantes uma sala que serviu de moradia por três meses até conseguir uma vaga no CRUSP – Conjunto Residencial da USP. A grana era muito curta. “Não passei fome, mas tive muita dificuldade para me manter. Eu era um corpo estranho aquela universidade. Apesar de ter estudado tanto e merecer estar lá, a USP não tinha sido feita para mim. Este foi o preço que paguei por contrariar as estatísticas”, pontua.

“FAREMOS PALMARES DE NOVO” – Na Universidade, Fábio retomou a militância no movimento estudantil e ampliou sua visão sobre a questão racial. Foi quando se reconheceu negro e passou a ter consciência do racismo como algo estrutural. “Durante minha formação, eu ingressei no Movimento Negro, participei de muitos projetos sociais e realizei trabalhos na área”, acrescenta. Depois de ter passado pelo movimento estudantil, Fábio sentiu a necessidade de passar a militar de forma mais coletiva no movimento negro e em 2005 concebeu e ajudou a fundar o Círculo Palmarino, corrente nacional do movimento negro. Foi a partir do Círculo Palmarino que fortaleceu seus laços com a periferias nos Saraus, Projeção de filmes e Oficinas. No movimento negro fez amigos e desenvolveu um forte sentimento da necessidade combater as desigualdades raciais.

Concluída a graduação, iniciou o mestrado em 2007 na Faculdade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Sempre combinou estudos e trabalho. Atuou em projetos sociais na área de educação, com cooperativas de materiais recicláveis e outros empreendimentos em economia solidária. Tudo isso sem abandonar os saraus, encontros e rodas de conversa do movimento negro.

Em sua trajetória, Fábio tornou-se pai de duas filhas, Heloísa, 19 anos, e a pequena Inaê, 9, e é atualmente casado com a bacharel em direito Brenna Tavares. Fábio e Brenna são negros, amigos, companheiros e militam juntos. Zeloso da família, Fábio compreende a importância e o papel da interseccionalidade e de não se hierarquizar as bandeiras e lutas. “Tenho orgulho da minha condição de negro e de ter construído uma família negra. Amor preto cura. Minha filha mais velha é Querr (pessoa sem gênero) e como pai vivencio e aprendo sobre os obstáculos enfrentados por ela.”, pontua Fábio.

“Se o poder é muito bom eu quero poder também” – Alternando militância partidária, trabalho social e estudos, Fábio foi se preparando para novos desafios até que em 2016, aceitou representar o PSOL na disputa a prefeitura de Salvador e obteve 13.747 votos. Em 2018, foi candidato ao cargo de Senador na Bahia pelo partido e obteve 165.705 votos totalizados, destes 76.718 em Salvador. Agora, ele se apresenta como pré-candidato a vereador e quer ocupar uma das cadeiras de uma das mais antigas Casas Legislativas do país. Defende, em suas palavras, “um verdadeiro Aquilombamento político” na cidade de Salvador. E como todo quilombo é uma construção coletiva não consegue perceber a sua luta de forma individual. “Não se trata de ‘eu’; trata-se de ‘NÓS’”, resume, Fábio.

Educação, inclusão social, igualdade de direitos, valorização da cultura baiana e negra, combate ao preconceito racial e de gênero, combate a violência contra a mulher e proteção a criança e ao adolescente são compromissos com uma cidade mais justa e humanizada que só é possível alcançar pela luta e o compromisso com valores coletivos. Este é, afinal, o sentido e a finalidade de ser fazer política, tornar o mundo menos desigual, menos injusto e, por fim, mais feliz.

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